devon divine 1125448 unsplash 1320x540 - O Azul, o Cor de Rosa e a Violência Doméstica
Maternidade

O Azul, o Cor de Rosa e a Violência Doméstica

A violência doméstica é um tema que, infelizmente, nunca sai de cena. Na última semana, morreu às mãos de um agressor uma menina de 2 anos. O agressor era o pai que, antes de tirar a vida à filha estrangulando-a, assassinou a sogra. Pelo caminho, matou toda a esperança e felicidade de uma mulher que chora agora a morte da mãe e da filha.

O progenitor da pequena Lara estava referenciado desde 2017 como agressor. Por não ser categorizado como violência doméstica, o crime deixou de o ser quando a mulher, alguns meses mais tarde, retirou a queixa. Este é um exemplo de como Portugal ainda vê a violência doméstica: um tema para tratar entre quatro paredes, entre marido e mulher.

A vítima de violência doméstica merece ser apoiada, protegida e suportada. Merece que ouçam as palavras que não diz, as queixas que não faz e que seja lida nas entrelinhas a coerção por detrás de cada desistência de queixa.

A vítima da violência doméstica é a mulher: a mãe, a companheira, a filha. É aquela que levou uma vida inteira a ser ensinada que os homens são mesmo assim, mais brutos.

A vítima é aquela para quem olham com pena, mas a quem não ajudam porque “entre marido e mulher não se mete a colher”. É aquela que ouvem gritar, mas à qual não dão voz para se defender.

Não existe uma solução mágica para acabar com a violência doméstica. Mas existem medidas concretas, tangíveis e executáveis para proteger as vítimas e evitar casos como estes. E, enquanto mães, temos nas mãos o papel de dar o exemplo e educar os adultos do futuro para uma sociedade sem diferenças de direitos e oportunidades entre mulheres e homens.

O cor de rosa para as meninas, o azul para os meninos

Comecemos pelo básico. Pode parecer idiota argumentar que vestir cor de rosa e dar bonecas às meninas as vai transformar em vítimas de violência doméstica. No entanto, não sendo o centro do problema, é a génese da perpetuação do mesmo estereótipo de género que, mais tarde, as vai convencer que o agressor lhes bate por amor.

A figura da mulher enquanto frágil e submissa começa a ser construída na cabeça das meninas quando lhes dizemos que “uma menina não se comporta assim”, “uma menina não deve jogar à bola com os rapazes” e “uma menina deve saber comportar-se”. Quando lhes passamos uma boneca para a mão e dizemos que não podem jogar à bola com os rapazes, estamos a dizer-lhes que é expectável que sejam mais fracas, que se mostrem submissas. Que um homem vale mais do que elas.

Mais tarde, é a esta menina que, no emprego, vão fazer acreditar que não deve levantar a voz se o patrão lhe gritar, que não deve contrariar o colega, que não vai conseguir aquele cargo de liderança. É esta menina que vai achar normal que o namorado, e depois o marido, se zangue, grite, chame nomes e até a ameace.

Sabemos sempre o que se passa na casa do lado

As vítimas de violência doméstica são frequentemente vítimas de uma série de preconceitos. Só sofre de violência quem quer. Se apanhava e não dizia nada, era porque tinha algum interesse. Se calhar até merecia… Achamos sempre que sabemos o que se passa na casa ao lado quando, na verdade, não sabemos de nada. Não sabemos o tipo de pressão psicológica a que a vítima é sujeita. Não sabemos as vezes que tentou pedir ajuda e não foi ouvida. Não sabemos o medo que carrega.

Da parte de quem assiste, podemos contribuir para o fim da violência doméstica com duas coisas: sentido de justiça e mudança de mentalidades. Podemos (e devemos) ensinar as nossas filhas que nenhum homem está acima delas. Ensinar aos nossos filhos que os seus cromossomas não lhe trazem qualquer tipo de estatuto superior. Ensinar aos nossos filhos que, para além de meninas e meninos, existem pessoas. Que a base da convivência, seja ela qual for, deve ser o respeito, o amor e a compreensão. Que as meninas não são todas frágeis e que os meninos também choram.


A APAV presta apoio a vítimas e a quem quer ajudar as vítimas a sair da situação de perigo. Tem vários pontos de atendimento em todo o país e uma linha gratuita: 116 006. Se és vítima ou se conheces alguém que esteja a ser vítima de violência, levanta a tua voz. Pelos teus filhos, pelos nossos filhos.