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Carreira Maternidade

Uma entrevista de emprego: a história de muitas mães

A entrevista estava marcada para as 14h mas a Ana, que andava há seis meses a enviar currículos sem resposta, já lá estava às 13. Pediram-lhe para esperar na recepção. Levava um livro, mas não se conseguiu focar nas letras. Acabou por ficar a observar as pessoas, que saiam e entravam no edifício, o semblante carregado, os ombros caídos, todo o corpo a gritar desconforto.

Acabou por ser levada para uma sala às 14h40m. A entrevistadora era alta, bonita, mas tinha um ar cansado. Devia ter mais ou menos a sua idade. “Terá filhos” perguntou Ana a si própria. As perguntas foram a do costume. Experiência, formação, funções desempenhadas. A entrevistadora ia sorrindo, acenando, parecia estar impressionada pelo currículo de Ana. Até chegar à pergunta. “Sim, tenho dois filhos” respondeu, os olhos pregados no chão, já antecipando o que viria a seguir.

A entrevistadora recuou na cadeira. Deixou cair o sorriso, fechou o caderno, fez menção de se levantar. “Esta função requer disponibilidade total”, responde, para a seguir forçar um meio sorriso enquanto diz “De qualquer forma, ainda estamos a entrevistar mais pessoas. Depois faremos chegar até si o resultado do processo de seleção”.

Esta é a história da Ana, repetida até à exaustão, sabe lá ela até quando. Esta é a história da Ana, mas também da Marta, da Sílvia, da Paula e da Leonor.

Esta é a história de um país que não cuida das famílias, que, ao mesmo tempo que fala sobre a importância de aumentar a natalidade, torna a situação das mães (e dos pais) cada vez mais precária, cada vez mais impossível.

Há 30 anos atrás, a maioria dos pais podia contar com as avós. As crianças ficavam ao cuidado dos avós, eram mimadas, acarinhadas e o tempo custava menos a passar. Agora, fruto da idade tardia em que as mulheres engravidam e das condições de vida, os avós já não estão disponíveis: precisam, também eles, de trabalhar. As crianças passam 8, 9, 10 horas em creches e infantários. E umas míseras horas com os pais.

Os recrutadores vêm os profissionais com filhos como menos capazes. Menos disponíveis. Menos. Esta é uma visão ridiculamente redutora de um profissional que, tendo filhos ou não, terá sempre uma vida pessoal, compromissos familiares, interesses fora do âmbito do trabalho. Este conceito de que funcionários dedicados são aqueles que estão sempre disponíveis, que se propõem a hipotecar grande parte da sua vida por um cargo que, na maioria das vezes, não lhes dá o retorno (emocional ou financeiro) que deveria, é angustiante. Está na hora das empresas pararem de olhar para os funcionários como robots, produtores de riqueza que se reduzem a um número, a um posto de trabalho, a uma função. Numa secretária, não está a administrativa ou o contabilista: está uma mulher ou um homem com filhos, pais, amigos, interesses, sonhos, desejos. Uma pessoa que precisa do trabalho para se sentir realizado e pagar as contas, mas que também precisa de estar com quem ama, praticar um hobbie, ter tempo para, simplesmente, estar.

É preciso voltar a devolver a humanidade aos Recursos Humanos.


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