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Carreira Maternidade

Sou mãe através da adoção. Que direitos tenho? Uma entrevista com Sandra Cruz

Existem mães que não tiveram os seus filhos na barriga. Mas esta é a única caraterística que as aparta das outras mães. Mas quais são as diferenças, na prática? Quanto tempo dura a gestação burocrática destas mães? Uma mãe através da adoção também tem licença? Que leis laborais protegem as famílias durante o processo? Existem apoios não-formais para quem está a passar por este processo?

A Sandra Cruz, mãe de duas crianças, é Terapeuta da Fala, tem um projeto próprio chamado Bem Dita Terapia e criou a Comunidade Os Nossos Dias para apoiar as famílias neste processo de amor. O Das Nove Às Cinco falou um bocadinho com a Sandra para perceber como se gere o processo de adopção e os compromissos profissionais.

Como é o processo de adoção em Portugal?

É um processo cheio de etapas e pequenas conquistas. Para iniciar o processo, há uma série de passos a seguir (desde sessões de esclarecimento, entrega de documentação, avaliação, inscrição na lista nacional de candidatos…) que culminam com a proposta de adopção. Desde o famoso momento em que o telefone toca e recebemos os nossos filhos em casa é uma azáfama. Entre termos de preparar os seus quartos, fazer um álbum de família, preparar as vidas profissionais para a nossa ausência, informar família e amigos e comprar roupa para a(s) criança(s). 

É mesmo uma loucura, o verdadeiro turbilhão emocional. O nosso telefone tocou no dia 14 e no dia 31 os nossos filhos dormiram cá em casa pela primeira vez.

Depois de um período de convivência durante o qual os serviços de adopção, através do acompanhamento da integração da criança, constatam a criação de laços afetivos e é pedido ao Tribunal que, através de uma sentença, estabeleça de forma definitiva a relação de filiação. Dá-se, assim, a adopção plena. Quando o Tribunal profere a sentença, o processo de adopção está concluído. Somos família oficialmente e podemos, finalmente, fazer os seus cartões de cidadão com os nossos apelidos.

Durante o processo de adoção, como geriu as questões profissionais?

Há pessoas que partilham este processo com a maior facilidade e tranquilidade com chefias e colegas e outras ainda que não partilham nada até ao dia de ter de informar as chefias da sua ausência para licença de parentalidade.

No meu caso, decidi manter discrição junto dos colegas, mas informei o meu chefe assim que recebi o meu certificado. Como éramos candidatos a crianças com idades até aos 10 anos, eu suspeitava que não teríamos de esperar muito tempo. E como eu era profissional única, senti obrigação ética para o fazer.

 Quando informei o meu chefe ele sugeriu que informássemos de imediato a administração – sou terapeuta da fala e trabalhava num hospital público. Nessa mesma semana, a administração procedeu a um pedido para a minha substituição por um ano, prevendo a minha ausência em breve. A verdade é que me tornei mãe, fiz licença durante 5 meses e voltei ao serviço sem haver uma resposta ao pedido. 

No meu serviço só recebi incentivos e desejos de felicidades. Após regressar ao trabalho percebi que teria de pedir a redução horária. Falei com o meu marido, fizemos contas e pedi redução por dois momentos. Tinha um contrato individual de trabalho de 35 horas semanais e, no fim, estava com 28 horas.

Os meus filhos precisavam da minha presença. Vir almoçar a casa a meio do dia de escola fazia toda a diferença na tranquilidade deles, por exemplo. Estes processos são difíceis, as crianças precisam (ainda mais do que o habitual) de uma noção muito forte da permanência dos pais.mAssim, não só pedi redução horária como pedia anualmente licença sem vencimento para os períodos de férias. Ou seja, para lá dos 22 dias, fazia contas aos dias de interrupção lectiva e pedia esses dias. E eram-me autorizados. Fui muito bem tratada do ponto de vista laboral.

Após dois anos neste sistema fizemos contas à vida e decidimos que eu me iria despedir. Trabalhei naquele hospital 16 anos, uma pequena vida. Fui muito feliz lá, mas chegara a hora de me despedir, ir ao meu caminho e dar lugar a outra pessoa. Todos compreenderam muito bem, ninguém me colocou culpas sobre os ombros.

Eu tinha de seguir a minha vida, tomar as decisões que melhor servissem a minha família, a necessidade dos meus filhos de terem um dos pais numa presença de 24/7. Mesmo que eles estivessem na escola, o facto de sabermos que um de nós estava sempre disponível foi importante durante esse período.

Agora, dois anos depois deste modo stay-at-home-mom, percebemos que nos encontramos noutro lugar enquanto família e pude regressar. Tinha saudades da Terapia da Fala e lancei-me num novo projecto profissional. Estou a fazer uma coisa à minha medida, não é apenas uma clínica de Terapia da Fala, é um lugar para a comunidade profissional e local, um lugar de educação e aproximação aos assuntos da Terapia da Fala. Estou muito feliz pela receptividade que o meu Bem Dita Terapia está a ter.

Como nasceu a Comunidade Os Nossos Dias?

Desde que me tornei candidata à adopção que tinha este objectivo. Com os meus filhos mais crescidos e reconhecendo-lhes a capacidade para decidir sobre estes assuntos, senti agora que já poderia orientar o meu caminho neste sentido.

Convidei amigos e tenho agora uma série de voluntários que também querem participar. Por vezes somos procurados pelas pessoas e temos de orientar bem o nosso tempo para as poder “atender”. Não sei que caminho é que este projecto vai levar. Os Nossos Dias não é uma entidade organizada formalmente e não tem quaisquer meios financeiros envolvidos. Os apoios propostos resultam apenas de trabalho voluntário dos seus membros – não-profissionais, o que quer dizer que, em determinados momentos, poderemos ver a nossa acção limitada pelo número de voluntários disponíveis. Assim, embora com um plano firme nas intenções, é um lugar em construção. Não posso dizer que o seu formato informal, nomeadamente a título financeiro, não sofrerá atualização conforme o seu crescimento.– porque o nosso tempo consumido, sem um retorno para pôr comida no frigorífico, enfim, não dá, não é?

Em termos laborais, o que falta na lei para que o processo de adoção seja mais fácil?

Eu igualaria todos os direitos aos da maternidade e paternidade biológica. Nós regressamos ao trabalho e não estamos a amamentar – alguns, pois é possível estimular a lactação em casos de adoção de bebés pequeninos, embora eu não tenha conhecimento de casos em Portugal. 

Acabamos por ter de ir por outras vias para a redução horária. Os nossos filhos precisam de nós e a diferença entre ter os “novos” pais presentes 24/7 para subitamente deixar de os ver 7/10/12 horas por dia é muito. Porque não uma redução horária no primeiro ano após o regresso da licença?

Outra coisa que acaba por ser difícil para algumas pessoas são as faltas para ir às sessões de formação. No meu  caso não foi difícil, eu pedia dias de férias e ninguém me perguntava mais nada. Só que esta não é a realidade de todos os serviços.

Esta questão tem outra dificuldade que é a pessoa pedir estes dias e ter de dizer para que são – e se a pessoa não quer dizer? Deveria haver uma forma, algo como quando o médico nos dá baixa e regista “doença natural”, ninguém tem nada que ver se foi uma gripe ou uma dor de barriga. Desta forma, deveria haver licenças da Segurança Social que referissem “Assuntos Sociais” e que legalmente estivessem no leque para o direito, no mínimo, a falta justificada.


A Terapia da Fala é uma área muito ampla onde se inserem não só problemas de fala e linguagem, como de motricidade orofacial e deglutição. O Bem Dita Terapia aborda estas problemáticas oferece apoio especializado para a sua solução. Podem consultar mais informações no website e no Facebook.

Convidamos também todos as famílias em processo de adoção a visitar o Facebook da Comunidade Os Nossos Dias