brooke cagle 195777 unsplash 1320x540 - Produtividade à Portuguesa: Quanto mais trabalho, mais produzo?
Carreira

Produtividade à Portuguesa: Quanto mais trabalho, mais produzo?

A discussão não é recente. No regresso da função pública às 35 horas de trabalho, muitas vozes se incendiaram: é que, no privado, uma gigantesca maioria das empresas continua a impor horários de 40 horas semanas (no melhor dos casos). A pergunta que se coloca é: quanto mais trabalho, mais produzo?

A resposta é simples: não. A verdade é que, culturalmente, estamos treinados para achar que muitas horas no escritório são sinónimo de muita produtividade. Admiramos o colega X, que nunca sai antes das 20h, mesmo tendo família à espera em casa, e cochichamos pelos corredores que o colega Y sai sempre à hora certa. Há uns anos, eu própria ouvi de um colega, ao preparar-me para sair exatamente à hora estipulada pelo meu contrato: “estás a trabalhar a part-time?”. E não, já tinha feito as 8 horas de trabalho, não estava a fazer part-time e, já agora, tinha terminado todas as tarefas estipuladas para aquele dia.

A nível de organização, as empresas podem beneficiar muito com a redução horária dos funcionários. Em primeiro lugar, menor carga horária aumenta o nível de felicidade dos funcionários. Existem inúmeros estudos sobre a relação entre felicidade e produtividade mas, para citar apenas um, escolhi o da Social Market Foundation, que afirma que um funcionário feliz produz 20% mais. Para além de aumentar a felicidade, ao reduzir a carga horária as empresas estarão a reduzir os custos. Pensem na eletricidade, água, consumíveis e todos os restantes recursos que são desperdiçados quando a produtividade começa a decrescer. Existe um sweet spot abaixo do qual deixa de ser rentável ter os funcionários no escritório, porque aquilo que produzem não compensa os custos. E, mais importante que isto, pensem nos recursos ambientais que são poupados: no fim de contas, precisamos de um planeta saudável para produzir mais.

Então, se a produtividade aumenta, porque é que as organizações têm dificuldade em aceitar a redução de carga horária?

Não há uma resposta direta. Em alguns casos, a natureza da indústria e dos termos de produção pode dificultar (mas não impedir) a aplicação de um horário reduzido. Noutras, é a falta de flexibilidade que dificulta a transição. Por todo o mundo, várias empresas vão testando este novo paradigma de produtividade. A mudança não tem de ser radical. Veja-se o exemplo da Iberdola, que implementou a jornada contínua por forma a permitir aos funcionários sair às três da tarde.

Sim, a mudança não será fácil. Sim, haverá sempre funcionários que ficarão descontentes com a mudança, que estranharão estas novas “modas” (lembram-se de ter falado sobre a questão geracional?) e que tentarão resistir. Mas é uma mudança que trará resultados a longo prazo. As novas gerações estão cada vez mais exigentes, cada vez mais informadas e criam cada vez menos vínculos com as entidades laborais. Ainda que a força de trabalho seja cada vez mais qualificada, certos mercados (como o das TI) continuam a ter dificuldade em contratar e reter talento. Uma empresa que valorize a vida pessoal dos funcionários, que lhes dê a possibilidade de sair mais cedo, praticar um desporto, desenvolver um hobbie ou simplesmente estar com a família, tem muito maior valor do que uma empresa que não tenha este tipo de políticas. E desengane-se quem acha que oferecer maiores salários compensa. Millenials e Geração Z valorizam cada vez mais a liberdade.

Em resumo, há duas formas de responder a esta questão: fechar os olhos e continuar a incentivar aos horários exagerados como medalha de honra do trabalhador esforçado (e ver os maiores recursos e talentos da empresa sair) ou investir tempo e energia numa nova realidade que funcione para empresa e trabalhadores.  


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