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Maternidade e cargos de chefia: de onde vem a desigualdade?

Quando entramos numa sala de reuniões de uma empresa portuguesa, é normal que, à mesa, se sentem maioritariamente homens. Também é normal que, olhando para os cargos de chefia, estes sejam ocupados, maioritariamente, por homens.

Em Portugal, 73% das funções de direção executiva são ocupadas por homens. Nos pequenos e médios negócios, existe maior presença feminina, sendo um terço dos pequenos negócios geridos por mulheres. Contudo, à medida que a dimensão do negócio aumenta, a presença das mulheres diminui*. Porquê?

Existe um contexto social que motiva isto. Durante o Estado Novo, competia às mulheres tomar conta da casa, serem boas esposas e boas mães. Pouco antes do 25 de abril de 1974, 70% das mulheres, entre os 20 e os 54 anos, não trabalhava. Os maridos podiam impedir as esposas de trabalhar e certas profissões estavam vedadas às mulheres.

Os quase 45 anos após a revolução ainda não apagaram as manchas desta mentalidade e destes hábitos. Embora se aceite e se incentive que a mulher continue a trabalhar, mesmo após o nascimento dos filhos, continuamos a exigir que a mulher seja boa profissional, boa esposa e boa mãe – mas sem lhe dar as ferramentas e a oportunidade para tal.

Exige-se à mãe que trabalhe como se não tivesse filhos e que cuide dos filhos como se não trabalhasse.

Considera-se normal exigir a cargos de chefia uma disponibilidade que não é compatível com a vida familiar. Isto afasta, naturalmente, a maioria das mulheres dos cargos de chefia. Ao mesmo tempo, desresponsabiliza os homens das suas responsabilidades enquanto pais e fragmenta, cada vez mais, as famílias, acentuando as desigualdades de expectativas em relação aos diferentes géneros.

Porque continuamos a promover modelos de trabalho que não são compatíveis com as famílias? Porque continuamos a colocar num pedestal as horas extra, a disponibilidade total, o alienamento da vida familiar em favorecimento da carreira? Não será possível manter ambas as esferas em equilíbrio?

A discussão sobre a paridade de géneros nas empresas avança e se discutem quotas, mas esquecemo-nos do mais importante: as mulheres ainda são vistas como o principal pilar da família. Não partilhando a responsabilidade, o homem ganha, obviamente, preferência nos cargos de chefia e no trabalho em geral.

No local de trabalho, os homens continuam a ouvir comentários ao estilo de Mas a tua mulher não pode ficar com os miúdos?, como se isto de ser pai fosse giro, mas só às vezes.

É preciso igualdade. Nos empregos e nas famílias. É preciso repensar aquilo que estamos a ensinar às nossas filhas – que a ambição profissional pode não ser ilimitada, até ao dia em que decidirem ser mães.

*Dados do Relatório Participação Feminina na Gestão das Empresas em Portugal, Retrato do Tecido Empresarial, Março de 2018, Informa D&B.