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Carreira Maternidade

Como a flexibilidade laboral pode ajudar as famílias

Photo by Simon Matzinger on Unsplash

Numa era em que estamos a um clique de distância, assiste-se cada vez mais ao fenómeno do trabalho remoto. São principalmente freelancers, que trocam o certo pelo incerto na busca de um horário mais compatível com a vida em família. A flexibilidade laboral não é apenas um “pretexto” para as mães passarem mais tempo com os filhos (o que, por si só, deveria ser um direito), é uma medida que benefícia as famílias. É uma forma diferente de ver o trabalho, a sociedade e a forma como nos organizamos.

Numa era em que computadores, smartphones e Internet nos colocam em qualquer lugar, em segundos, que sentido faz continuarmos a insistir no modelo “das nove às cinco”, onde o empregado é levado a picar o ponto exatamente à hora de saída (e nem um minuto a menos!)?

É incrivelmente difícil para uma mãe voltar ao trabalho. Mesmo que ame a profissão. Mesmo que aquilo seja tudo o que ela sempre quis.

A mulher que agora entra no escritório a tentar limpar as manchas de leite do blazer é uma mulher completamente diferente: nas suas prioridades, nas suas crenças, nas suas ambições.

Nesta luta para equilibrar maternidade e carreira, muitas desistem, adiam planos. Deixam para trás o emprego com que sempre sonharam porque, na escala de prioridades de uma mãe, os filhos vêm sempre primeiro – e é assim que deve ser.

Tudo isto se transforma num círculo vicioso. A mãe sucumbe ao peso da culpa e fica em casa, a tempo inteiro, com as crianças. O pai passa a ser o único sustento da família e acaba por passar muito mais tempo no escritório, porque o patrão pede, porque não pode dar-se ao luxo de colocar o emprego em risco. A mãe sente-se sozinha, desamparada, deprimida. O pai chega cansado, exausto, sem paciência. Os miúdos ressentem-se. Toda a estrutura de uma família rebenta de dentro para fora.

O conceito de família, em Portugal, ainda está muito preso à figura da mãe. Em parte, por culpa das políticas deficientes que encaram os pais como uma “adição simpática” à equação, mas raramente lhes reconhecem a importância.

“Então, o pai ajuda?” continua a ser uma das frases que mais ouvimos no pós-parto, como se o ónus da família fosse única e exclusivamente da mãe e o pai fosse um mero espectador.

Isto coloca uma pressão emocional brutal na mãe, acabando também por afastar o pai da sua participação ativa na estrutura familiar. É um tipo de pensamento datado, estereotipado e que em nada ajuda as famílias.

Oferecer horários e compromissos de trabalho flexível, como o trabalho remoto, é o maior compromisso que uma empresa pode fazer para com as famílias e a sua felicidade: é oferecer à mãe e ao pai a oportunidade de gerir a estrutura familiar de uma forma muito mais harmoniosa. Permite, a curto prazo, responder ao desequilíbrio entre mulheres e homens no local de trabalho, retirando ao homem a responsabilidade de sustento da casa e distribuindo-a pelos dois elementos do casal.

Em termos de produtividade, está comprovado que esta aumenta quando os empregados se sentem valorizados e respeitados. Então, porque é que o modelo de funcionamento da maioria das empresas fecha os olhos a esta realidade, escudando-se atrás da lei para recusar flexibilidade de horários e trabalho remoto? Porque continua o Estado a ignorar a figura do pai no desenvolvimento das políticas de parentalidade? Porque nega a sociedade à mulher uma participação harmoniosa na vida ativa, conjugando família e trabalho?

Criar estratégias, propor mudanças, ter abertura a paradigmas de trabalho menos convencionais: é o que basta para ajudar muitas famílias. E acabar de vez com casos como o da Ana.